Pai de uma menina, terapeuta e formador de competências humanas, Pedro Fernandes deixa conselhos úteis a todos os pais. E não só. E desmistifica conceitos como PNL, Hipnose Clínica ou terapia holística.
Começo pela pergunta que, certamente, mais vezes lhe fazem. O que é a PNL (Programação Neuro Linguística)?
É uma excelente pergunta (risos). PNL é uma técnica de comunicação. Nasceu na década de 1970, na área da Psicologia Cognitiva Comportamental e o objetivo é incentivar uma forma de comunicação mais eficaz. Parte do princípio de que temos padrões mentais de comunicação, que depois se traduzem na linguagem e produzem ações.
Usou a palavra “padrão”. Há um padrão que seja aplicável a todas as crianças?
Essa é a parte espetacular de ser Pai: é que não há (risos). Quando a minha filha nasceu, uma das coisas que percebi com facilidade e rapidez, porque ela me obrigou a isso, é que ela não vinha com manual. Estudei durante 5 anos a pedagogia e ela não vinha nos livros. Não existem crianças iguais, nem pais iguais. E cada pai, ao longo do percurso, vai mudando. Por isso, não há padrões
Há falta ou falhas de comunicação entre pais e filhos?
Há falta das duas coisas. Há falta de comunicação, as novas tecnologias promovem isso, é fácil pôr uma criança a ver televisão durante horas e ela não se aborrece nada com isso. E depois a falha de comunicação nota-se quando ela pára de ver televisão e vai almoçar ou jantar, por exemplo, e a comunicação não acontece de forma eficaz. Por exemplo, quando um pai diz “vem para a mesa” e a criança responde “já vou”, está a haver comunicação mas com falhas, porque como diz a minha filha, “já vou é agora”. E raramente uma criança quando diz “já vou”, vem.
A falta de tempo dos pais para os filhos será a principal razão para as tais falhas de comunicação?
É um dos fatores, a falta de tempo, o cansaço… Para sermos pais comprometidos temos que arranjar formas de gerir o nosso tempo, não chega aquela hora ou meia hora com qualidade. A criança tem de sentir que estamos comprometidos com ela. Ainda existe a ideia de que a criança é um adulto em ponto pequeno, que ela compreende e vê as coisas da mesma maneira que os adultos. Mas não é assim, ela vê as coisas à maneira de uma criança. Para eu ter uma comunicação mais eficaz com a minha filha tenho que ter a minha mentalidade de adulto, Pai, mas ter também a flexibilidade de entrar na cabeça dela e perceber o que é que ela está a viver naquele momento.
Os pais de hoje pensam muito e sentem pouco?
Essa é a questão: sente-se muito pouco. Pensa-se muito sobre o que se sente mas sente-se pouco sobre o que se pensa. Uma das coisas que a PNL nos diz é que as duas coisas estão relacionadas. Penso e sinto ao mesmo tempo, ou as duas coisas são próximas uma da outra. Temos pouco tempo para sentir e as coisas na educação e na comunicação entre pais e filhos resolve-se muitas vezes pelo sentir, porque não é uma coisa que se explique.
Estaremos a criar futuros adultos insensíveis?
Acho que a natureza é sábia e vai acabar por selecionar as coisas, mas estamos a contribuir para isso quando não damos tempo aos nossos filhos para sentir. Por exemplo, numa birra, ela está a sentir a birra, ok, vamos dar-lhe tempo, mas não temos tempo para isso, de manhã porque temos que ir para a escola ou para o trabalho. E dizemos-lhes muito: “vá, agora não temos tempo para isso”. Então quando é que vamos ter tempo?
Ter um filho é um enorme desafio e há altura em que os pais desesperam. Que estratégias podem adotar para minimizar aquelas situações extremas, de birras, etc.
A primeira é permitirem-se desesperar. Não desesperar com a criança, mas dar um grito pela janela, apanhar ar, ir dar uma volta sozinho. Ter tempo para si, para o casal, é muito importante. A segunda é: se percebo que não tenho recursos internos para, emocionalmente, estar conectado aos filhos, procurar ajuda. Se partir um pé vou onde? Ao ortopedista. Porque é que, se emocionalmente não estiver bem, vou tomar um café ou apanhar ar e não procuro ajuda? A terceira é permitir-se sentir mais, estar a olhar só para a criança, vê-la brincar. Nunca vi uma criança estragar uma brincadeira, mas já vi adultos estragarem muitas brincadeiras, por não saberem brincar. Na minha geração – fiz agora 39 anos – os nossos pais também não tinham muito tempo para brincar. Desaprendi a brincar e tive que reaprender a brincar quando fui Pai. É preciso dedicar-mo-nos.
Quais são os problemas mais recorrentes com que se depara nas suas consultas?
Falhas de comunicação. Os pais e os filhos, muitas vezes, não falam no mesmo canal comunicacional. A PNL fala-nos em 3 canais comunicacionais: o visual, o auditivo e o cinestésico. Um exemplo: se eu quiser dizer a uma criança para vir para a mesa, posso-lhe dizer “vê lá, vem para a mesa” (visual); “estás a ouvir o que te estou a dizer” (auditivo); ou tocar na criança (cinestésico), ela gosta de sentir o toque. Este é um dos grandes problemas da comunicação. É muito frequente os pais perderem a mão, dizerem que os filhos não respeitam regras. Depois vamos ver porque é que não respeitam regras e muitas vezes é porque as crianças participam demasiado nas regras que existem lá em casa. Isto porque os pais se demitem dessa função, de comunicar como autoridade.
Há falta de autoridade ou há autoridade a mais?
Acho que se passou do 8 para o 80. No meu tempo, havia autoridade e mais, que não me fez mal mas também não me fez bem e agora acho que há autoridade a menos, o pais demitem-se um bocadinho da sua responsabilidade de decidir. Coisas simples, como perguntar a uma criança “vamos agora sair de casa, não é”?, ela não sabe sabe, fica confusa. Tem que haver uma hierarquia bem definida, saber-se quem manda e quem obedece. As crianças gostam disto, de saber quem manda lá em casa.
Também ensina técnicas de PNL a alunos e professores. Em que é que pode ser uma boa ajuda na relação aluno/docente?
Uma das atividades que se propõe é fazer uma ligeira meditação. Uma das palavras pilares da PNL é imaginação e sabemos quem é que tem imaginação na escola e lá em casa: são as crianças. Quanto utilizo esta ferramenta estou a potenciar várias capacidades da criança, desde logo a concentração. Depois, a capacidade de aprender. E de estar em sala durante o tempo que a escola propõe, que são demasiadas horas. Uma das coisas que se propõe aos professores é utilizarem a imaginação de forma criativa. Depois, para corrigir comportamentos: existem formas de o fazer para além do castigo. Não percebo como é que neste século ainda se utiliza o castigo, no seu conceito tradicional: “fizeste isto, estás de castigo”. Sempre, por norma, porque às tantas também é importante que a criança perceba que aquilo que fez tem uma consequência, se esta é grave. Mas eu prefiro a substituição da consequência, as palavras têm peso, importância, e na escola utilizando as palavras certas potenciamos um vínculo entre o professor e o aluno.
As técnicas não encontram maior resistência com os adolescentes, que pensam que sabem tudo?
Sente-se um bocadinho de resistência no início. Uma das coisas importantes é que o adolescente perceba que precisa de ajuda. A primeira coisa a fazer é um coaching parental, os pais levarem o jovem a perceber que aquele comportamento não lhe vai trazer benefícios. Depois, quando estão no consultório, adoram. O difícil é parar quando o problema está resolvido (risos). Eles percebem que estão a usar uma coisa que já não usavam há muito tempo, que é a imaginação de forma focada. Melhoram os resultados escolares, a concentração, os professores dizem que estão diferentes. Mas tem tudo a ver com eles.
E numa empresa, quais são os maiores desafios que encontra para ensinar PNL?
Estamos numa fase em que há maior abertura. A maior dificuldade é chegarmos aos resultados, porque a PNL produz resultados mas levam o seu tempo. Numa organização não basta mexer num departamento para as coisas funcionarem, é preciso o trabalho ser um pouco mais sistémico. Mas há ainda quem, dentro das empresas, ache que isto é um bocadinho banha da cobra, que há um desfasamento entre o que se está a dizer e a realidade.
Outra das técnicas que utiliza é a hipnose clínica. Sente que ainda há muito ceticismo relativamente a ela?
Há bastante ainda estamos na fase em que as pessoas pensam que a hipnose é ficar de queixo caído e a baba a sair do canto da boca (risos). E não é nada disso. É um estado modificado de consciência, natural ou induzido. Qualquer um de nós pode perceber que entra em transe naturalmente se, por exemplo, estiver no trânsito e alguém lhe passa à frente, rapidamente podemos passar de um estado calmo para um estado super agressivo. A diferença em clínica é que induzimos este estado. O objetivo é trabalhar o que está no inconsciente da pessoa. E é super controlado, há três regras fundamentais: a pessoa tem que querer, se não quer não funciona, o terapeuta não tem poder sobre ela; tem que ter imaginação (e todos temos); tem que estar focada naquilo que quer. E só é possível colocar no subconsciente da pessoa aquilo que ela realmente quer.
Poucos sabem que pode ser útil no parto
Pode. O hipnoparto é uma técnica muito gira, muito agradável para a Mãe e também para o Pai. Como é natural, o processo não tem qualquer contra indicação, pelo contrário. Fazendo uma leve indução, provoca relaxamento. No parto, a mãe fica mais tranquila e dá para o pai ter um papel mais ativo. A mãe não deixa de ter contrações mas a dor diminui. E a mãe tem uma sensação de controlo maior sobre o processo.
Por falar em ceticismo, leitura da aura e terapia holística são termos que levam muita gente a torcer o nariz?
Levam… até experimentarem. A leitura da aura é uma técnica também baseada nos estados de alteração de consciência mas parte do pressuposto de que temos um corpo mental e emocional, mas também temos um corpo energético. Estes corpos estão todos ligados. A leitura da aura o que faz é, em estado modificado de consciência, mas do terapeuta, este tem acesso àquela informação do inconsciente. A terapia holística é um mix entre todo o meu trabalho, que passa por identificar os padrões de comportamentos a serem alterados, com a leitura da aura, e depois com a hipnose podemos potenciar a sua resolução.
Tem uma filha de 5 anos e costuma usar exemplos de situações que viveu com ela para partilhar conhecimento. É uma espécie de balão de ensaio das suas técnicas?
A Eva é um balão de ensaio, mas virou-se ao contrário (risos). Às vezes ponho-me num pedestal, acho que já sei muito sobre, e ela vem-me ensinar que não é bem assim, que há coisas a mudar. Até porque as técnicas não duram muito tempo com ela, temos que estar constantemente a mudar. Mas, pensando bem, acho que eu é que sou o balão de ensaio dela, ela é que testa em mim o amor que lhe vou passando.
Qual é a melhor coisa que alguém que consultou lhe pode dizer?
Não diz. Vê-se nos olhos.










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