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Testemunhos

O pesadelo da enurese noturna

Sou a mãe da Sofia, de 8 (quase 9) anos. O fantasma da enurese instalou-se cá em casa em Janeiro de 2013, pouco antes da Sofia fazer os 5 anos. Desde os 3 que não usava fralda à noite, ou seja, durante 2 anos a Sofia controlou perfeitamente o chichi.

Quando tudo começou estávamos a consultar uma psicóloga, devido ao facto de não estarmos a conseguir lidar com as birras da Sofia. Na altura, a psicóloga disse-nos que a origem da enurese era emocional, uma vez que houve um período em que tudo esteve controlado, pelo que começámos a tratar da enurese partindo desse princípio (criámos um calendário, onde anotávamos as noites secas e as noites molhadas. A cada 7 noites secas de seguida, a Sofia recebia uma pequena recompensa).

3 abortos e uma ajuda preciosa
Entre finais de 2011 e inícios de 2013, passei por 3 abortos espontâneos. Embora a Sofia apenas tenha tido conhecimento do primeiro, inevitavelmente isto teve consequências no meu comportamento e no próprio ambiente familiar. Mais um motivo para acreditarmos que a enurese da Sofia se devia a questões emocionais e não físicas. Ainda comentei com a pediatra mas esta, em vez de mandar a Sofia fazer exames para despistar qualquer problema físico, também assumiu que o problema era de origem emocional e vá de nos recomendar a psicóloga da sua clínica (nunca mais lá voltei).

Em Outubro de 2013 descobrimos que eu estava novamente grávida. E, embora a Sofia não soubesse da gravidez (só lhe contámos quando tivemos a certeza de que tudo estava bem), nesse Inverno os acidentes foram quase diários!!! Houve dias em que não havia roupa para colocar na cama dela. Quando a Sofia foi à consulta dos 6 anos, falámos no assunto à médica de família. Foi ela então que mandou a Sofia fazer análises à urina e uma eco à bexiga. Os resultados foram normais. Nesta fase, a única maneira da Sofia ter noites secas era: fazer chichi antes de ir dormir (entre as 21h30 e as 22h), voltar a fazer por volta das 00h00 e mais uma vez cerca das 04h00 (como eu estava grávida, acordava naturalmente e aproveitava para a levar à casa de banho). Mas cheguei à conclusão que estava a prejudicar o seu descanso.

Entretanto, descobri uma página no Facebook: “Super Pais Contra o Chichi na Cama”! Através desta página descobri que há hospitais que têm consultas específicas para este tipo de problemas. Acontece que o mais próximo de nós era em Lisboa (vivemos no Algarve), mas com um bebé a caminho não via grandes possibilidades de me deslocar frequentemente. Em Abril de 2014 resolvi então enviar uma mensagem para a página. Foi o princípio do fim do problema. Recebi uma ajuda e um apoio de que não estava de todo à espera. A pessoa com quem eu trocava as mensagens, para além de todas as palavras de força e coragem que tanto me motivaram, indicou-me uma médica, especialista em Uronefrologia Pediátrica, no Hospital de Faro e, após algumas formalidades, lá consegui uma consulta para a Sofia em Maio de 2014.

A primeira consulta

Começou então uma etapa que só terminou há pouco tempo: após a primeira consulta tivemos de, durante 2 fins de semana seguidos, medir todos os líquidos que a Sofia ingeria, assim como todo o chichi que ela fazia e a que horas. E durante 7 noites ela teve de usar fralda, para que de manhã pudéssemos pesar a mesma e calcular a quantidade de chichi que a Sofia tinha feito durante a noite. Tivemos ainda que vigiar os cocós (quantidade, consistência, …).

Toda a informação recolhida era anotada num diário para esse efeito. A juntar a isto tudo, e durante todo o tratamento, houve que não só reduzir o consumo de líquidos, a partir das 18h, como também evitar ao máximo refrigerantes e Ice Tea, ir à casa de banho no máximo, de 3 em 3 horas (aqui foi necessário pedir a colaboração da professora) e fazer sempre chichi antes de ir dormir e logo ao acordar.

Na consulta seguinte, e após análise da informação contida no diário, a médica concluiu que a bexiga da Sofia não tinha a capacidade devida para uma menina da sua idade e também que ela sofria de obstipação. Assim, houve que alterar alguns hábitos alimentares da Sofia e medicá-la para a obstipação. Mas continuava quase tudo na mesma: o máximo de tempo que a Sofia ficava sem fazer chichi na cama era pouco mais de 7 noites, depois lá vinham umas noites molhadas e assim sucessivamente.

O terrível Inverno
No Inverno as coisas tinham tendência a piorar. Numa outra consulta, a médica optou por lhe prescrever uns comprimidos que ajudaram bastante. Nesta fase, a Sofia já só fazia chichi na cama umas 3 a 4 vezes por mês, o que era excelente! Já sem a medicação, houve um mês (Junho de 2015) que só fez 2 vezes. Isto foi uma vitória! Mas com a chegada de novo inverno tudo piorou novamente. A Sofia começou então a usar o alarme, por indicação da médica. Usou durante 14 noites. Ajudou no sentido em que, assim que fazia umas pinguinhas o alarme disparava e íamos a tempo de levá-la à casa de banho. Foi interessante pois pudemos perceber que, apesar de fazer sempre chichi antes de ir dormir, entre as 21h30 e as 22h, ela voltava a fazer chichi antes das 00h00. Após este período seguiu-se um outro sem acidentes, mas que durou pouco tempo.

Na consulta seguinte, a Sofia veio com prescrição de desmopressina (medicamento para estas situações, eficaz mas cujos efeitos secundários são muito assustadores). Demos início ao tratamento, mas devido a umas complicações respiratórias (não causadas pelo medicamento), interrompemos o tratamento logo ao fim de uns dias. Como entretanto não houve mais noites molhadas, não lhe dei mais os comprimidos. Até ao início do Verão houve um ou outro episódio, mas a partir de Junho 2016 a Sofia deixou de fazer chichi na cama. Em Setembro fomos a nova consulta e a Sofia teve, finalmente, alta! Embora tenhamos ficado muito felizes, eu ainda estava receosa por causa do Inverno, mas até hoje as noites têm sido todas sequinhas!

Importante não culpar

E este foi o nosso percurso desde Janeiro de 2013! Peço desculpa pela dimensão do texto mas tudo foi importante. Todas as fases, todos os passos que nos trouxeram até aqui, ao dia de hoje!

Consegue imaginar o que sentimos durante estes três anos e meio? Gostaria de realçar que, em momento algum, nos zangámos com a Sofia, ou a culpámos fosse do que fosse. Deixámos sempre bem claro que eram acidentes e que ela podia contar sempre connosco para a ajudarmos a resolver o problema. É certo que muitas vezes nos apetecia gritar, pois foi uma situação muito esgotante! Também ficávamos desiludidos quando ela nos chamava para dizer que tinha feito chichi! E a felicidade que sentíamos nas manhãs em que ela acordava seca? Impressionante como algo tão simples nos pode fazer sentir tão felizes!

Não desistam!

Não quero terminar sem voltar a mencionar que não teríamos chegado aqui sem a preciosa ajuda da pessoa que estava à frente do projeto, que referi quase no início: “Super Pais Contra o Chichi na Cama”. Infelizmente essa pessoa já não faz parte do projeto, pelo que não posso garantir que o apoio prestado agora seja o mesmo. Nós tivemos mesmo muita sorte!

Espero que este Testemunho ajude as famílias que estão a passar pela mesma situação. Acreditem que com muito amor e muita paciência (e ajuda médica, se necessário) tudo se resolve. Houve momentos em que pensei que este problema nunca iria ter fim e, agora, aqui estou a dar o meu testemunho. Espero sinceramente que vos dê força para não desistirem. Por vocês mas, acima de tudo, pelos vossos filhos. Se pesquisarem, irão ficar surpreendidos com o número de crianças em idade escolar que sofrem deste problema. Lembrem-se sempre que eles não fazem de propósito. Isto afeta imenso a auto estima deles e se vocês não estiverem lá para os apoiar, quem estará?

Fernanda Crujo

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